Mudar mas pouco

Enquanto pesquisava soluções para resolver os meus problemas de saúde, deparei-me com uma tonelada de dietas diferentes que prometiam resolver todos as doenças possíveis e imaginárias. Juntei o meu desespero à minha curiosidade natural para experimentar coisas novas como justificação para experimentar algumas dietas diferentes: vegetariana, vegana, macrobiótica, crudívora (só são permitidos alimentos crus), sem glúten…

Uma dieta sem lactose era essencial devido à minha intolerância à lactose: azia, refluxo, cólicas brutais e fulminantes, não obrigada! Quando eliminei o glúten não só consegui eliminar a minha anemia crónica, como também consegui evitar a minha prisão de ventre e ir diariamente à casa-de-banho. Ao regular e acalmar os meus intestinos, reduzi a minha retenção de líquidos e celulite, aumentei um pouco a minha energia, e deixei de ter a pela tão seca, mas sentia que se tinha conseguido melhorar aquilo tudo, deveria haver uma maneira para melhorar ainda mais.

Quando eliminei a lactose substituí o leite de vaca por bebidas vegetais (leite de arroz, leite de aveia, leite de coco) e a manteiga substitui por cremes de barrar vegetais. Quando eliminei o glúten, substitui a massa de trigo por massa de arroz ou milho, o pão por pão sem glúten, e os cereais de pequeno-almoço de trigo por cereais de arroz ou de milho. Ou seja conclui que afinal não tinha mudado muito apenas tinha substituído ingredientes. E então foi aí que me apercebi:

“Não há nada verde no meu prato! Eu não como verdes!”

Mais verdes que um vegetariano

Eu acredito que para cada corpo existe um tipo de dieta ideal, pois somos todos diferentes e cada corpo reage aos alimentos de maneiras diferentes. Adorava que o meu corpo tolerasse uma dieta vegana, de modo a evitar as mortes do animais, mas infelizmente uma ida ao hospital concluiu que a minha intolerância ao glúten, à soja, e a algumas leguminosas torna a dieta vegana impossível para mim.

Ao pesquisar sobre dietas sem glúten, sem lactose mas com muitos vegetais descobri a dieta paleolítica. Esta dieta afirmava ser uma dieta onde o consumo diário de vegetais de folhas verdes era muito superior comparado a uma dieta vegetariana. Duvidei bastante porque ao pesquisar na internet sobre a dieta paleolítica basicamente só apareciam imagens com bifes enormes e toneladas de carne, mas a verdade é que quanto mais lia sobre o assunto mais me convencia que era uma dieta onde se consumiam muitos vegetais. E foi então que decidi aprofundar mais os meus estudos sobre a dieta paleolítica.

Uma dieta com história

A dieta paleolítica inspira-se nos alimentos consumidos pelo homo sapiens durante a era do paleolítico. Nessa altura a alimentação era o mais natural e pura possível, baseada em alimentos de verdade como as frutas e plantas selvagens, a carne, e o peixe. Na era do paleolítico a agricultura ainda não estava desenvolvida, logo ainda não havia um consumo de cereais nem de lacticínios de uma maneira regular. E como não se cultivavam alimentos não havia margem de manobra para comer produtos industrializados e embalados. Oh que chatice!!!

Mas a dieta paleolítica (ou dieta paleo para ser mais simples) pode ser mais do que uma simples dieta.

Ensaios clínicos demonstraram que uma dieta paleo ao regular os níveis de açúcar no sangue, e ao reduzir a inflamação geral no organismo, ajuda na perda de peso, reduz os riscos de doença cardiovascular, reduz o colesterol e regula a tensão arterial.
A dieta paleo ao reduzir e prevenir a inflamação no nosso organismo, melhora consideravelmente a qualidade de vida de portadores de doenças auto-imunes. Adeus inflamações, adeus dores! Olá boa vida!

Comer da cabeça aos pés

A dieta paleo é uma dieta baseada em vegetais, com dois terços ou mais de cada refeição compostos por alimentos de origem vegetal e apenas um terço de alimentos de origem animal. Não há regras muito rígidas sobre as quantidades, mas para além de carta branca para comer doses industriais de vegetais, o consumo de carne, peixe ou ovos é aconselhado em todas as refeições, porque a proteína animal fornece nutrientes vitais ao nosso corpo que não podem ser obtidos a partir de fontes vegetais. Além disso a proteína animal ajuda a equilibrar os níveis de açúcar no sangue, evitando os picos de glicemia que sofremos quando ingerimos hidratos de carbono. A indicação é de que a proteína animal em cada refeição não deve ultrapassar o equivalente ao tamanho da palma da mão de cada um.

Os alimentos vegetais são também o grupo mais extenso e mais completo a nível nutricional do grupo alimentar. Naturalmente sem glúten, sem lactose e na sua maioria com um índice glicêmico baixo, excepto algumas frutas e alguns tubérculos, os alimentos vegetais são o grupo de alimentos onde podemos obter a maior variedade de vitaminas, minerais e aminoácidos. A variedade e rotação dos alimentos é muito importante, porque só conseguimos absorver os diferentes nutrientes que alimentam e nutrem verdadeiramente o nosso corpo, se consumirmos uma vasta variedade de alimentos diferentes.

Existem duas directrizes que devemos seguir numa dieta paleo para confirmar que estamos a correr de maneira correcta: devemos comer “as cores do arco-íris” e devemos comer “da cabeça aos pés”.

A dieta paleo sugere que para se obter o máximo de nutrientes dos alimentos devemos consumir um arco-íris de frutas e vegetais com casca sempre que possível, e que devemos consumir não só as raízes dos vegetais como cenouras, beterrabas e nabos, mas também devemos consumir os caules e as folhas.

No caso dos animais a maneira para obter o máximo dos nutrientes, passa por consumir o animal da cabeça aos pés, o que quer dizer consumir todas aquelas partes que não vêm fatiadas numa couvete de plástico e que fazem impressão a muito boa gente: coração, fígado, rins, língua, orelhas, pés, rabos… Na minha opinião esta é a maneira mais nobre e justa de comer um animal e de honrar a sua morte. Quando apenas comemos peitos de um frango, ou carne picada de uma vitela, o que resta do animal é desperdiçado em vão, quando está cientificamente comprovado que os maiores benefícios que obtemos de consumir proteína animal provêm dos orgãos dos animais.

Mas tal como as cascas das frutas e vegetais, comer orgãos de animais só faz sentido quando os alimentos provêm de agricultura biológica e no caso dos animais quando estes são alimentados com os ingredientes mais indicados para a sua fisiologia (para ficarem a saber mais informações sobre os benefícios do consumo de alimentos de agricultura biológica espreitem este artigo).

Saudáveis mas nem tanto

Na dieta paleo evitam-se alguns alimentos difíceis de digerir que podem irritar, inflamar ou danificar os tecidos intestinais, de modo a obter um sistema digestivo saudável e a fortalecer a saúde intestinal. Um intestino saudável é essencial para absorver todos os nutrientes que o nosso organismo necessita para um funcionamento normal do sistema imunitário, para regular as hormonas e para suportar melhor o efeito oxidativo que stress tem sobre o nosso organismo.

A universidade de Harvard já retirou os lacticínios da sua roda dos alimentos à alguns anos, pois para além de serem um grupo alimentar que causa tantas intolerâncias, já está mais que provado que o consumo de lacticínios não é vantajoso para o ser humano. Os lacticínios para além de causarem distúrbios intestinais também são óptimos a produzir muco. Se algum dia se sentirem com crises de sinusite ou estiverem tão congestionados que têm que manter os lenços no nariz, tentem lembrar-se quando foi a última vez que beberam leite ou se deliciaram com uma fatia de queijo!

Os óleos vegetais como o óleo de girassol, de soja ou de amendoim e as margarinas vegetais não são assim tão saudáveis para a nossa saúde. São extremamente ricos em ómega-6 e este ómega-6 quando não é equilibrado com uma dose industrial de ómega-3, torna-se extremamente inflamatório para o nosso organismo. E a não ser que consumam uma tonelada de cavala por dia não dá para equilibrar o rácio de ómega-3 para tantos ómega-6.

Existem outros alimentos que apesar de serem considerados saudáveis podem causar uma resposta desagradável no nosso organismo, como por exemplos os cereais, as leguminosas e os chamados pseudo-cereais.

Alguns cereais como o trigo, a cevada e o centeio contém glúten, uma proteína maldita que causa tantos problemas a tantas pessoas (se quiserem saber mais sobre o glúten espreitem este artigo).

Para além de alguns cereais conterem glúten, todos os cereais incluíndo, a aveia, o arroz e o milho contêm níveis muito altos de uma proteína especial chamada lectina. Esta proteína especial é responsável pela capa protectora que os cereais têm para os defender contra os insectos e outros predadores. Sim os cereais têm um insecticida natural que nós não vemos mas os nossos intestinos vêem e muito bem. Esta proteína é tóxica, não é destruída pelo cozimento dos alimentos, é resistente aos ácidos da digestão e pode colar-se às paredes dos intestinos causando um distúrbio na saúde intestinal.

A lectina bloqueia a absorção dos nutrientes e impede a reparação dos danos nas paredes do trato intestinal que ocorrem naturalmente durante a digestão dos alimentos. O consumo de alimentos com lectina pode tornar o intestino permeável, impedindo que o organismo filtre as substâncias tóxicas que deveriam continuar o seu caminho pelo intestino. Como consequência as paredes dos intestinos absorvem todas as substâncias tóxicas pela corrente sanguínea, provocando reações no nosso organismo como alergias, inflamações e problemas metabólicos causados pela intoxicação.

“Então mas e o arroz branco que tão saudável e é recomendado quando estamos com problemas intestinais e diarreia?”

O arroz branco ao contrário do integral, está despido da capa protectora insecticida o que o torna mais “meigo” para nossos intestinos. Contudo o arroz branco não tem nutrientes nem vitaminas, sendo composto basicamente por amido e o seu índice glicêmico é quase tão alto como o do açúcar. Ou seja comer arroz branco é basicamente comer açúcar às colheres, mas de uma forma menos inflamatória!

As leguminosas como o feijão, o grão, a soja, e os pseudo-cereais como a quinoa, o trigo-sarraceno e o amaranto contêm níveis altos de saponina, um outro tipo de capa protectora especial que protege estes alimentos dos insectos, fungos e de outros possíveis predadores. A saponina é a substância responsável pela formação da espuma quando colocamos grão ou quinoa numa panela e enchemos com água.
A saponina assim como a lectina, também é tóxica para o nosso organismo e também pode contribuir para tornar o intestino permeável, logo o ideal é evitar também os alimentos que contêm saponinas.

Já repararam que as batatas também fazem espuma quando as colocamos numa panela e as cobrimos de água? Saponinas? Sim infelizmente! As batatas apesar de serem um vegetal contêm níveis elevados de saponina e não só. Já repararam que quando as batatas grelam, existem partes da batata que ficam verdes? Essas partes verdes são produtos da solanina, outra proteção natural da batata contra os predadores. A solanina também é bastante tóxica, pode provocar diarreias e intoxicação alimentar para os mais sensíveis, principalmente se for consumida com casca. Se alguém se sentir mal depois de comer umas batatinhas a murro com pele já sabe!

As batatas apesar de serem um vegetal e de terem várias vitaminas e minerais, são compostas basicamente de amido e tem um índice glicêmico muito elevado. O facto de as batatas elevarem bastante os níveis de açúcar no sangue e de terem imensas protecções tóxicas que podem causar distúrbios no bom funcionamento intestinal, faz com que o consumo de batatas não seja muito aconselhado na dieta paleo, principalmente para quem tem um organismo mais delicado e para quem tem problemas com o índice glicêmico.

Uma vida menos doce?

A dieta paleo erradica quase completamente o açúcar, porque ninguém precisa de comer colheres de sopa de açúcar para sobreviver. O açúcar em todas as suas formas, formatos e feitios, provoca um pico de glicemia no nosso organismo, eleva os níveis de açúcar no nosso sangue, desregula as nossas hormonas, aumenta a massa gorda corporal e como consequência inflama todo o nosso organismo.
As frutas e os vegetais contêm todo o açúcar que o nosso organismo necessita para funcionar. As frutas contêm um açúcar natural chamado frutose, e os vegetais como as batatas-doces, as cenouras e as abóboras contêm açúcar natural sobre a forma de amido.

Contudo a dieta paleo tem algumas sugestões mais simpáticas para o organismo, para aqueles dias especiais em que queremos um bolinho para comemorar a vida ou para aqueles dias horríveis em que tudo corre mal e queremos esquecer o mundo com um buffet de sobremesas! Se é para ter uma overdose de açúcar, a sugestão da dieta paleo é que seja uma overdose vitaminada, cheia com vitaminas e minerais.

A melhor maneira para adoçar uma vida paleo é utilizar os alimentos que já são aconselhados numa base diária: as frutas. Usar bananas, puré de maçã ou de pêra são maneira excelentes de adoçar um bolo. Quando optamos por alimentos biológicos, os alimentos são muito mais saborosos e naturalmente mais doces o que torna a fruta um adoçante natural fantástico. A fruta seca como os figos, os alperces e até mesmo as tâmaras são outra solução natural e saudável para adoçar doces e sobremesas.

O mel é outra óptima solução para adoçar a vida: um adoçante natural cheio de vitaminas, nutrientes e propriedades terapêuticas! Mas atenção não é por ser natural e saudável não é razão para comer o pote todo! O mel é composto por níveis altos de frutose, que é absorvida rapidamente pela corrente sanguínea e armazenada no fígado. Quando consumimos frutose em excesso o fígado não consegue metabolizar a frutose e transforma este açúcar em gordura. Resultado: fígado confuso e com problemas, gordura acumulada, hormonas desreguladas e inflamação confirmada!

O xarope de ácer pode ser outra solução para adoçar aquele bolinho de domingo. Com um valor mais baixo em frutose, o xarope de ácer também é muito rico em nutrientes e minerais. Tem um sabor muito agradável, semelhante ao mel, mas não é um produto português e é bastante caro.
Outro produto não português que pode substituir o açúcar refinado é o açúcar de coco. De sabor e aparência semelhantes ao açúcar mascavado, este adoçante natural de baixo indíce glicémico substitui o açúcar na mesma quantidade. Contudo é um açúcar muito rico em fibra, a inulina que pode provocar distúrbios intestinais nos organismos mais sensíveis. Para além disso é muito caro e não se dissolve muito bem nas receitas de sobremesas.

E para finalizar este tópico tão doce que até já estou com um pico de glicémia, proponho uma outra solução menos fantástica mas mesmo assim mais saudável do que açúcar refinado ou adoçantes industriais: o melaço de cana. Apesar de ser um produto obtido através da cana de açúcar, o melaço de cana contém as vitaminas e minerais que o açúcar refinado já não tem, já que no processo de refinação do açúcar os nutrientes ficam pelo caminho. A opção seca do melaço de cana é a rapadura, a forma menos refinada do açúcar. A rapadura apesar de ser açúcar puro continua a ter algumas vitaminas e minerais.

Mas vamos lá a ter juízo. Não podemos ser seduzidos por aquelas colheres diárias de mel ou por aquele snack de tâmaras a meio da tarde com a justificação de que tem vitaminas e é saudável.
A premissa da dieta paleo é manter sempre os níveis de açúcar o mais regulado possíveis pois é a única maneira de prevenir inflamações e distúrbios no funcionamento do nosso organismo.

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A dieta paleo é uma dieta onde o consumo de açúcar é naturalmente baixo pois as frutas e os vegetais têm toda a doçura necessária que o nosso organismo precisa para ser feliz.

E eu como uma apaixonada pelos alimentos de verdade, pelos alimentos biológicos, pelos alimentos das hortas e dos pomares não podia ser mais feliz com a descoberta desta dieta.

A dieta paleo dá-me energia para acordar todos os dias às 8 da manhã sem sono, regula o meu intestino e cuida da minha saúde digestiva e intestinal, equilibra as minhas hormonas e ajuda-me a reduzir a inflamação constante que o meu corpo sofre como consequência da minha doença auto-imune.

Comer alimentos de verdade, na sua forma mais pura e nutritiva permite-me viver a vida de uma maneira diferente, de uma maneira mais fácil, mais saudável e de uma maneira mais feliz.

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