Incêndios na serra da Lousã: a dor de perder o que não é nosso

Incêndios na serra da Lousã: a dor de perder o que não é nosso

Dejá vu, a sensação de familiaridade

Não me lembro da primeira vez que visitei a Lousã, mas sei que já se passaram uns bons pares de anos. Não tenho a certeza se fui em 2011 ou 2012 mas sei que nunca mais consegui esquecer aquelas árvores. Eram os pinheiros mais altos e mais lindos que eu alguma vez tinha visto.

Rodeada por aquele pinhal denso por todos os lados senti uma sensação de alegria, felicidade, conforto e realização que eu nunca consegui explicar. Senti uma sensação de pertença e de calma que eu nunca consegui sentir em outro lado. Senti que pertencia naquele lugar e senti que era lá que eu queria ser feliz.

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Já se passaram muitos anos e eu ainda não consegui realizar o meu sonho de morar na serra da Lousã. Já visitei quase Portugal inteiro e apesar de amar o nosso país inteiro e de achar que todos os nossos pequenos cantos são lindos, nunca consegui acalmar o meu espírito como quando estou na Lousã.

Apenas voltei lá mais uma vez e se somar os dias todos que lá passei foram apenas 8 dias, mas foram dos dias mais felizes da minha vida. É muito estranho explicar mas sinto que é como se lá tivesse vivido uma vida inteira, e que quando volto para lá o meu coração acalma. Sinto calma, completa e feliz.

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Incêndios em Portugal 2017: um inferno na terra

Na primeira vez que visitei a serra da Lousã, passei por Góis e deliciei-me com a praia fluvial de Castanheira de Pêra. Na segunda vez que visitei a serra da Lousã, era para visitar Pedrogão Grande e Pedrogão Pequeno. Acabei por não conseguir visitar tudo e fiz a promessa que iria fazer essa visita este ano.

Quando no último sábado liguei por acaso a televisão à 1 da manhã, devido a uma maldita insónia, levei literalmente um soco no estômago com toda a força. A minha serra, a serra da Lousã, aquela serra que eu tanto amo, por ter as árvores mais altas e mais lindas de Portugal, a serra que fazia parte da área florestal menos ardida de Portugal, estava completamente a arder.

A minha serra estava a arder e não era pouco. A minha serra estava a arder de tal maneira que ainda hoje está a arder. A minha serra ardeu tanto, mas tanto que levou a vida de dezenas de pessoas. Pessoas essas que tal como eu amavam demasiado aquela serra. Pessoas essas que amavam tanto aquelas árvores que construíram lá as suas casas, tal e qual como eu sonho em construir.

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Eu fiz caminhadas nas aldeias de Xisto da Lousã de mais de 8 horas, eu ri muito em Góis, eu nadei muito na praia fluvial de Castanheira de Pêra. Eu fui muito feliz rodeada daquelas árvores. p1080100

Tenho muitas palavras que posso continuar a escrever. Tenho muitos sentimentos que posso expressar. Tristeza, sofrimento, angústia. As árvores não eram minhas, as casas não eram minhas, as pessoas não me eram nada. Mas sinto-me como se tivesse perdido tudo isso e muito mais.

Tenho um nó no coração que ainda não consegui desatar, tenho lágrimas que me correm pela cara só de pensar na minha serra. Porque é que eu amo tanto aquela serra eu não sei. Só lá tive 8 dias, não dá para explicar. Mas só sei que quero ir para lá, quero lá estar, quero lá viver, quero ser feliz lá.

Tenho medo, tenho dúvidas, tenho angústia. Mas tenho a certeza que quero voltar a ver aquela serra pintada de verde. Quero plantar dezenas, centenas ou até milhares de árvores com as minhas mãos. Eu quero ser Serra da Lousã.

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