Ser mulher é muito difícil

Ser mulher tem aspectos muito positivos e aspectos muito negativos. Um dos aspectos que mais me incomodava quando era mais nova era o “período”, ou cientificamente falando, a menstruação. No meu caso sempre achei que o termo MONSTRUAÇÃO fosse o mais indicado, porque sempre tive imenso fluxo, sempre tive dores e sempre foi muito incomodativo para mim.

Quando era mais nova não conseguia perceber aqueles anúncios dos pensos higiénicos e tampões, com mulheres felizes e contentes de bikini na piscina, ou a saltar felizes e contentes de saia, porque para mim a menstruação era sinal de evitar mexer-me ao máximo, vestir umas calças pretas bem grossas, uma caixa inteira de pensos na mala e muitas probabilidades de sujar tudo e mais alguma coisa. E aqueles anúncios dos comprimidos para as dores? Um comprimidinho e já está, uma mulher fica logo pronta para ir correr a maratona! Aquilo é que era eficácia! Mas comigo a história era outra.

Sempre achei que ter dores durante a menstruação era normal. Os médicos sempre me disseram que era normal e inclusive disseram que se existem comprimidos para as dores menstruais é porque está cientificamente comprovado que é normal ter dores. Quando comecei a tomar a pílula as dores diminuíram e o fluxo também. Durante alguns anos consegui controlar a minha MONSTRUAÇÃO e até já me sentia confiante para ir para a praia naqueles dias do mês. Sentia-me uma mulher mais normal e sentia que este aspecto de ser mulher estava controlado. Até que comecei a ter infeções vaginais recorrentes. Todos os meses. Todas as semanas. Todos os dias.

Ser mulher é dose!

Ser mulher consegue ser algo muito belo, mas também consegue ser algo muito destruidor, quando aquilo que nos define como pessoa do sexo feminino nos começa a sabotar. As minhas infeções vaginais duraram alguns anos, e os vários ginecologistas que consultei diziam que era normal, era o stress, eram fungos, e receitavam-me anti-fúngicos e cremes vaginais. Todos os meses ia ao médico, ao hospital, com dores horríveis, com corrimentos que não passavam, com ardor e comichão que não passava. Gastei centenas de euros com pomadas diferentes, cremes de farmácia, cremes da ervanária, comprimidos anti-fúngicos, vitaminas, suplementos naturais…
Já não conseguia ter uma vida sexual activa e estava muito afectada a nível psicológico. Um médico muito simpático numa urgência chegou-me a dizer que era tudo da minha cabeça e que eu precisava de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, porque estava a ser hipocondríaca e a exagerar, e que nenhum homem me conseguia aturar desta maneira… Enquanto eu estava despida numa marquesa de pernas abertas a ser avaliada. Muito fixe!
Depois de mais uma ida a uma farmácia, uma farmacêutica aconselhou-me a mudar a minha vida rapidamente, porque já tínhamos perdido a conta de quantas pomadas com cortisona eu já tinha comprado, para tratar do meu problema íntimo. Esta farmacêutica aconselhou-me a deixar de tomar a pílula porque suspeitava que eu poderia estar a fazer alergia, e como eu estava desesperadamente à procura de uma solução, decidi tentar.

Na própria semana em que deixei de tomar a pílula, os meus sintomas começaram a reduzir. Passado um mês estava completamente livre de sintomas e desde o dia em que deixei de tomar a pílula até hoje posso contar pelos dedos de uma mão quantas vezes voltei a ter infeções vaginais. Já passaram 6 anos e desde então devo ter comprado 4 caixas do creme vaginal mais barato da farmácia. Passei de 1 infeção vaginal que durou anos, para 1 por ano se tanto.

Os anos foram passando e as infeções vaginais eram coisa do passado, mas cada mês que passava as minhas dores menstruais aumentaram. Em 2013 as dores eram tantas que durante 2 a 3 dias por mês não conseguia sair de casa para ir trabalhar, tomava 3 comprimidos de 1g de paracetamol por dia, mais anti-inflamatório de 600mg de 8 em 8 horas, e ainda ficava cheia de dores. Um mês as dores foram tantas que passei uma noite inteira a vomitar e a desesperar no chão da casa-de-banho, até que fui para o hospital, fiz exames deram-me paracetamol e mandaram-me para casa porque só estava com dores do período.

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Ter dores não é normal

Irritada com o meu próprio corpo, voltei a consultar vários ginecologistas que me disseram que era normal ter dores e que eu deveria voltar a tomar a pílula. Revoltada com as soluções, voltei a tomar a pílula sabendo que provavelmente voltaria a ficar com as angustiantes infeções vaginais crónicas, e não só se comprovou ser verdade como fiquei com outros sintomas. A minha intolerância à lactose tinha voltado com força e como todas as pílulas orais têm lactose na sua composição, não só a pílula me tinha trazido as infeções de volta como também não me deixava sair da casa-de-banho, com tanta dor de barriga e diarreia. Pílulas nunca mais!
Deixei de lado a opção das pílulas e decidi fazer exames por iniciativa própria. A minha irmã tinha acabado de ser operada a um quisto nos ovários de urgência, e eu comecei a ficar com medo e a pensar que se calhar deveria confirmar que estava mesmo tudo bem comigo, como os médicos afirmavam.

Decidi fazer uma ecografia endo-vaginal para avaliar os estado dos meus ovários e dirigi-me a uma clínica perto de casa a um sábado de manhã. Acabadinha de acordar, cheia de sono e super nervosa, chego à sala das ecografias, e uma médica muito antipática, introduz o aparelho muito bruscamente (sim é mesmo onde vocês estão a pensar), e no meio de toda a minha situação desconfortável e frágil, a médica exclama:

“Você assim como está nunca vai ter filhos!”

… Fiquei paralizada …

Quando ela me mandou levantar eu ainda mal conseguia pensar quanto mais falar, mas ainda assim perguntei-lhe a gaguejar, o que é que eu tinha. A médica respondeu-me que tinha que ir a um médico especialista porque tinha que ser acompanhada por um especialista, porque os ovários cheios de quistos com cerca de 5cm, e que provavelmente eram quistos de endometriose, e que eu assim nunca ia engravidar e que os quistos podiam rebentar.
E foi assim que eu sai da clínica a um sábado de manhã, quando eu só ia fazer um exame de rotina para confirmar que estava tudo bem comigo, como os médicos afirmavam.

Viver em negação nunca é solução

Depois de uns dias de pânico, completamente exausta e farta de consultar tantos médicos, decidi consultar novamente um ginecologista. Mostrei os exames e receitaram-me mais uma vez a pílula. Eu disse que fazia alergia à pílula e que não podia tomar e a médica disse que o único tratamento era a pílula. Agradeci e sai do consultório desesperada mais uma vez. Com tanta frustação decidi recorrer ao pior dos médicos: a internet! Durante uns meses tomei alguns suplementos naturais e as dores menstruais diminuíram bastante. Tentei esquecer o que se passava comigo, os suplementos naturais estavam a funcionar e decidi viver a minha vida naturalmente, até ao dia em que o período desapareceu. Passaram-se semanas e como o período nunca mais aparecia decidi ir a outro ginecologista diferente porque estava sempre a experimentar médicos novos, podia ser que apanhasse algum bom. Uma nova ecografia para avaliar os meus ovários e fui mandada de urgência para o hospital para ser operada de urgência. Os meus quistos dos ovários tinham crescido e já estavam com 10cm.

Passaram quase 3 meses até conseguir ser operada, comecei a ter hemorragias vaginais diárias, como se fosse o período só que durante 2 meses, comecei a ter dores paralisantes e tive que ficar em casa à espera de ser operada. Fui operada em Junho de 2014 . Não vale a pena contar onde fui operada, só vou contar que fiquei sem um ovário e abriram-me a barriga de uma ponta à outra. A cicatriz infectou porque descobri que sou alérgica ao metal e eu tinha a barriga cheia de agrafos. O pós-operatório foi muito delicado, fiquei mais de 1 mês em casa e nunca mais fui a mesma pessoa. Fiquei com a barriga dormente, não conseguia sentir na zona da cicatriz, tinha perdido completamente a sensibilidade, e no tempo em que fiquei em casa a recuperar, surgiu a ideia de fazer o Di-Frent.difren_post_3

Medo o pior dos inimigos

Medo. Medo é um sentimento diário que me acompanha desde o dia em que fui operada pela 1ª vez. Passado 9 meses de ser operada a 1ª vez, voltei a ser operada de urgência.

Resumindo muito rapidamente, comecei a sangrar nas relações sexuais, voltei a fazer exames, quistos de 11cm, passados uns meses voltaram as dores, desta vez ainda maiores do que da vez anterior, deixei de dormir, deixei de comer, deixei de ser feliz, deixei de querer viver. As dores eram tão fortes, tão agudas, tão crónicas, tão angustiantes, tão desesperantes que eu só queria morrer. O medo de voltar a ser operada e voltar tudo novamente era tão grande que eu queria desistir da vida. Deixei de conseguir pensar e fiquei em modo automático. Aguentei até ao dia da operação e em Março de 2015 voltei a ser operada. Desta vez num hospital diferente acompanhada por uma equipa médica especializada em endometriose. Fui operada com os “furinhos” como eu costumo dizer, e conseguiram limpar os focos de endometriose e deixar-me o ovário, tudo por 3 furinhos. Recuperei super rápido, voltei a ter sensibilidade novamente na barriga e tive um pós-operatório fantástico que me deu alegria e força para continuar a viver.

Mas eu nunca mais fui a mesma. Nunca mais fui eu mesma. Nunca mais consegui ser só eu. Agora sou eu e a endometriose. E a endometriose mete-me muito medo. Medo de voltar a passar por tudo outra vez. Tenho tanto medo que continuo à procura de soluções para conseguir viver melhor e sem dores.

A endometriose obrigou-me a amar-me mais, a respeitar-me mais, a pensar mais em mim e a ser mais feliz.
O medo de voltar a ter endometriose faz-me fazer Yoga, que me ajuda a ficar sem dores e transmite-me uma sensação única de felicidade, bem-estar e satisfação.
A endometriose fez-me descobrir que sou celíaca, e que juntamente com a minha intolerância à lactose e à intolerância à soja, fez-me apaixonar novamente pela cozinha e fez-me criar receitas Di-Frent que me ajudam a ter menos dores.
A endometriose fez-me uma pessoa mais feliz e mais grata, porque agora os dias não têm que ser especiais para eu me sentir feliz. Os dias agora só têm que ser sem dores e sem sintomas de endometriose para serem simplesmente o melhor dia de todos, e eu agradeço muito à vida por todos os meus dias sem dores e por todas as menstruações sem dores!

Não sei se vou conseguir viver o resto da minha vida sem ser operada outra vez, e todos os dias penso nisso, mas foi por isso que criei o Di-Frent. Enquanto este estilo de vida Di-Frent me ajudar a viver melhor, eu vou continuar a ser Di-Frent.

Saibam mais sobre a endometriose neste artigo, no site MulherEndo – Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, e partilhem este artigo para alertar sobre o facto de que ter dores menstruais não é normal!

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