Os novos 30

À 5 anos atrás um ex-colega de trabalho disse-me que eu já tinha idade suficiente para começar a calçar sapatos de salto alto e para começar a maquilhar-me todos os dias. Fiz 30 anos esta semana e continuo a não usar saltos altos e muito menos me maquilho diariamente. Com o passar dos anos deixei de usar a roupa da minha irmã mais velha, que me emprestava a sua roupa mais adulta e discreta e comecei a comprar cada vez mais roupa na secção de criança e na secção de homem. Desisti de comprar sapatos porque porque só me sinto bem com ténis ou com botas de caminhada, e cada vez mais tenho adoptado um estilo super desportivo. E agora uma confissão escandalosa: deixei completamente de usar soutiens e passei a usar apenas tops de miúda.

Passamos a adolescência toda a desejar a idade adulta, desejamos a liberdade dos “adultos” e todas as coisas fantásticas que nós pensamos que só os “adultos” podem ter. E depois quando a vida adulta supostamente começa, iniciamos a nossa vida profissional, passamos por várias transformações, definições e redefinições, e chegamos à conclusão que afinal ainda não queremos ser adultos.

Pagar contas é uma chatice e não ter tempo para fazer aquilo que queremos é uma frustração. Passamos a semana toda a trabalhar e o fim-de-semana passa a correr. Entre compras, limpeza da casa e mais 2 ou 3 tarefas, o fim-de-semana acaba e chegamos à conclusão que nem fizemos metade daquilo que queríamos fazer. De vez em quando alguém faz um jantar de amigos, mas tem que ser a uma sexta ou a um sábado, e à meia-noite já estão 2 ou 3 a abrir a boca de tanto sono. E resumidamente é isto a vida da maior parte dos adultos de 30 anos.

Infelizmente existem alguns trintões desempregados e nem todos os que têm emprego têm um emprego estável. Dos que trabalham alguns trintões têm mais tempo livre, porque ainda vivem em casa dos pais e não perdem tanto tempo com as responsabilidades domésticas, mas também existem aqueles trintões que têm ainda menos tempo livre porque já têm filhos.

Mas independentemente do estilo de vida de cada um, todos os integrantes desta nova geração de trintões têm algo em comum: todos calçam ténis (ou sapatilhas dependendo da zona do país).

A alguns anos atrás ter 30 anos significava ser um adulto responsável, com vários anos de carreira, casado, com casa própria e com filhos. E nessa altura um adulto responsável só era considerado um adulto a sério se tivesse uns sapatos nos pés.

Tenho 30 anos e pago as minhas contas como um adulto responsável apesar de vestir roupa de criança.
Tenho 30 anos, ainda não comprei a minha casa, ainda não tenho filhos e nem sequer tenho a carta ainda.
Tenho 30 anos e ainda não tenho a minha vida toda definida, mas cada dia que passa tenho mais a certeza daquilo que eu quero ser, daquilo que eu quero alcançar, daquilo que eu quero vestir e daquilo que eu quero calçar.

Tenho 30 anos e tenho a certeza que quero continuar a calçar ténis confortáveis durante o resto da minha vida. Serei menos adulta por isso?

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